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sábado

Moita - Barcelona (TIKI 30)

( 1ª Parte )      ( 2ª Parte )      ( 3ª Parte )


Bom!!!
A oportunidade de dar uma espreitadela no Atlântico surge...
e sem pensar duas vezes, digo sim, e reafirmo de seguida, claro que sim...

e embarco numa viagem pela costa Atlântica numa
embarcação de madeira feita no quintal do meu vizinho...

Simplesmente atirei-me de cabeça...
era a oportunidade perfeita, para espreitar esse mundo.






Introdução:
A historia para conseguir chegar até aqui, é longa... muito longa mesmo,
e foi um reunir de acontecimentos e coincidências da vida, que criaram tal oportunidade...

À uns anos conheci um senhor que tinha um Catamaran (TIKI 30),
a amizade por ele cresceu, ganhou raízes e ganhei mais um bom Amigo...
É uma pessoa com idade de ser meu pai, portador de uma experiência singular,
...ele tinha lentamente construído esse catamaran no seu quintal,
conforme o dinheiro lhe ia aparecendo sempre com muito trabalhinho e dedicação, ...

Uma verdadeira "obra prima" com 9 metros e tal feita pecinha por pecinha com as suas mãos e pronta a navegar pelos oceanos, ...
Esta não foi a sua primeira construção, já era o 4º catamaran que fazia de raiz... Um deles tinha 13 metros e tal que foi vendido para Itália.
O seu objectivo nunca foi vender o seu trabalho, umas vezes vendeu para fazer um melhor, ou então por isto ou por aquilo...

Mas pronto... e resumindo isto, o Catamaran foi vendido, e agora à que velejar até Barcelona...





Antes da venda do TIKI já o Rui tinha arregaçado as mangas,
e construído a sua 5ª embarcação, mas essa historia fica para outra altura,
pois foi um privilégio acompanhar esse trabalho, que vi nascer do "zero".



Preparação 
e toca a limar arestas

Levamos o TIKI (catamaran agora baptizado por AO NUI) para Lisboa,
para fazer uns ajustes finais antes da viagem...






Depois de distribuirmos da melhor forma o peso pelos dois cascos...
depois de fazer-mos uma saída com o Tenebroso Mar da Palha ao rubro,
ficamos de queixo caído com a segurança e performance que o TIKI nos dava.

Uns 3 dias antes da partida chega o 3º elemento da Equipa,
e eu já andava à mais duma semana a contar os minutos para o dia da partida.

A tripulação seria:
-  Jordi, o novo dono do TIKI e com experiência em vela nos mono-cascos,
-  Vicente, um experiente skipper que tratava a nossa costa Atlântica e o Mediterrânico por "tu",
-  e Eu, um autodidacta vindo da vela ligeira em aguas abrigadas,
    ou seja sem experiência nenhuma nestas coisas.



Com a ajuda do Jordi tinha feito uma lista de coisas necessárias.
Depois da lista feita, dei-lhe um toque pessoal, ou seja,
reduzi a lista para metade... Pois gosto de andar levezinho eheheh

Basicamente foi só isto (foto)...
- uma muda de roupa para o frio e um impermeável,
- umas t-shirts, calções, peúgas e tal para o resto do tempo.
- luvas / sapatos de neopreme para vela ligeira
- uma bandeira da Moita e outra de Portugal,
- um saco cama e uma almofada,
- um bocado de sabão azul e branco, e uma toalha...
...e mais uma coisinha ou outra, como o meu velho e amigo colete auxiliar de flutuação que me acompanha desde o 1º dia nestas andanças.






Teria que levar e usar, e pela 1ª vez, um arnez de segurança.
Seria de uso obrigatório durante navegação nocturna ou em dias com aguas agitadas...
(porque assim manda o bom senso)

Depois ver preços, nem pensei duas vezes,
vou puxar pela criatividade e construir um.
...assim foi!!
Fiz este (da foto), que não ficava a dever nada aos que por aí se vendem para velejar, (exemplo),
usando praticamente apenas material reciclado ou coisitas que tinha na garagem.






Na véspera compramos agua e comida para uns dias.
Diga-se a verdade que já não consegui dormir nessa noite,
era uma mistura de sentimentos do caraças e ansiedade "aos montes"

Era o receio e medo miudinho de como o meu corpo iria reagir à ondulação, à viagem,
como iria poder ajudar e ser uma mais valia na Equipa sem experiência nestas coisas...

Mas misturado com o tal "medo miudinho" a minha confiança, o meu optimismo estava em alta e sentia-me fisicamente bem para a tarefa...
Por isso muitas vezes me perguntava!?!? - o que pode correr mal? e não me ocorria nada!!
...e como seria as coisas neste mundo com agua por todo o lado?!?!
e pensei!! - vou ser eu mesmo, sempre pronto, sempre atento, vou ser eu mesmo e pronto!
Vou com toda a humildade e simplicidade, tenho que aprender rápido o que houver para aprender...
Sempre com muita calma e tranquilidade, sempre sem stress, seja em que situação for...

...e acima de tudo, "não vamos tentar", vamos fazer tudo bem e sempre à primeira...
e se errarmos, aprendemos imediatamente com o erro, e siga para que não se repita...
era esse o meu objectivo...


...e  ...e lá vamos nós,
com calma e ao sabor da curiosidade, e a curtir a beleza de Lisboa...






Já admirei Lisboa a bordo e ao sabor do vento, não sei quantas vezes,
mas nunca me canso de admira-la...





e... olha!! olha!! e não é que ali vai o Navio Escola Sagres.






O sempre imponente e bonito Padrão dos Descobrimentos
o nosso monumento aos Navegantes (Wikipédia)






- Qué cosa más hermosa...
foi o que eu ouvi dizerem quando nos aproximávamos da Torre de Belém

A bordo do TIKI tínhamos combinado falar-se sempre em Castelhano...
embora houvesse um grande esforço em se falar muitas coisas em Português, e digo isto a sorrir, porque nos dias seguintes eu pensava para mim,
- há muitas de palavras técnicas que são iguais às Portuguesas...
mas na realidade, era o Jordi e o Vicente a usarem muitas palavras e termos em Português...






Passar para lá do Farol do Bugio era para mim atravessar a tal fronteira,
aquela fronteira para aquilo que estava para vir...
finalmente tinha conseguido sair da barra,  eheheheh.






O Cabo Espichel deslumbrava-se no horizonte,
a agua é limpa e transparente... nada que eu já não tivesse visto em "n" praias, mas aqui tinha um gostinho muito especial e diferente.

MAS ...
... mas algo grande e muito rápido aparece à tona de da agua e como aparece desaparece,
Era grande demais para ser um peixe, e eu tinha a certeza de ter visto algo...
segundos depois vejo novamente e era um golfinho que nadava na nossa direcção,






e do nada aparecem golfinhos de todos os lados,
talvez uns 10 ou 15...
eram rápidos, nadavam mesmo muito rápido por todas as direcções,
pareciam curiosos, e alguns nadavam de lado entre os cascos do Tiki para olharem para nós...






Parecia que queriam escoltar o Tiki, ou verificar se estava tudo bem connosco,
ou simplesmente desejar-nos de alguma forma boa viagem.
Por sorte tinha a filmadeira no colete e registei a coisa...







Os golfinhos foram à vida deles, e agente à nossa...
mas a visita destes animais do mar deixaram a bordo uma alegria, uma gratidão, uma tempestade de bons sentimentos...
"Alegria" ou seja boa disposição pelo espectáculo surpresa que vimos...
"Gratidão" por a vida nos dar estas oportunidades de vivermos e fazermos algo que gostamos muito...
e esses sentimentos de uma forma ou de outra, duraram até ao ultimo dia da viagem.


e...
CABO  ESPICHEL
Cabo Special One, como eu lhe gosto de chamar eheheh






Já tinha ouvido falar que o Cabo tinha umas coisas chamadas de furnas,
mas desconhecia o seu verdadeiro aspecto.
Tinham me dito que as furnas, eram como uma espécie de funis gigantes que projectavam as vagas a muitos metros de altura, e que já tinham ceifado muitas vidas ao pessoal da pesca desportiva nesta encosta.






...e era este afinal o aspecto das furnas do Special One






A costa do Cabo até Sesimbra parece um "queijo Suíço"






Depois de visitar-mos Sesimbra, e uma pontinha da Arrábida, era altura de fazer rumo a Sines.
Velejávamos com tempo, onde era tão importante o rumo como desfrutarmos da paisagem,
e nem sempre o caminho mais rápido ou favorável era o mais bonito... por isso termos feito um desvio para Sesimbra.

O desvio serviu para chamar-mos ao "barulho o 4º membro" para a  Equipa...
o Piloto Automático de Vento (Windvane Self Steering), que foi terminado nas vésperas da partida.






E ali estávamos os 3 a olhar para aquilo, e a mexer e ajustar por tentativa e erro.
Umas vezes funcionava e levava-nos em direcção a Sines, outras vezes queria ir para os Açores, e outras para o Alentejo...
Resumindo e concluindo, algo estava mal e a coisa não estava a resultar lá muito bem...

Este Piloto automático, é um mecanismo que foi feito em madeira com roldanas e cabos, alimentado por uma energia chamada vento...
e eis que alguém se lembra dum pormenor deveras importante, e diz:
- Si quitamos la gasolina del motor fuera de borda, el motor deja de funcionar ¿no?
   y si tenemos um viento débil y intermitente, ¡aquí está nuestro problema!

Pois é... mas entretanto já tínhamos lixado tudo, com tantas desafinações eheheh







Uns dias depois lá conseguimos pôr a coisa a funcionar a 100%






Quando estávamos a poucas horas de Sines,
e eu não me calava, dizendo:
- olhem, olhem... aquela onda deve ter uns 2 metros!
  ... e aquela? e aquela? quase 3 metros certamente!

O Jordi ria-se e concordava comigo, e o Vincente dizia:
- nooo!! lo que usted piensa es,  tienes que dividir por 2
  Así es como se mide la altura de las olas...
  ¡¡ que son olas de 1 metro, o 1 metro y poco !!

nã... aquilo tinha que ter mesmo 2 metros, eheheh

Era frustrante tentar fotografar as vagas e depois quando ia ver a imagem parecia ser "mar chão".
Nesta foto (em baixo) eu estou de pé acima da agua 1 metro, ou seja tirei a "peligrafia" a uns 2 metros e meio de altura da agua, entre duas vagas... e não consigo ver a vaga anterior a esta...
Por isso esta era das grandes... mas até parece que tirei a foto num lago de aguas paradas eheheheh...







O TIKI fazia velocidades de 7,5 nós
a descer as ondas de 2 a 3 metros...
era fantástico, era bonito de se ver...

Sentia-se que o Catamaram estava feliz connosco... e nós com ele.








E o tempo passou a correr, foram horas ricas em tudo...
todos os meus receios de algo pode-se correr menos bem desapareceram como por magia,
e em nenhum momento me senti inadequado neste novo mundo de muita agua por todos os lados...

Lembro-me de olhar para o horizonte e ver agua a perder de vista,
mas parecia ou iludia-me como se já tivesse vivido isto "montes de vezes"...

Estava feliz da vida, como naquelas ocasiões que realizamos ou conquistamos um velho sonho,
e a "cereja em cima do topo do bolo", é que ainda estava-mos no inicio da nossa viagem.

Porto de Sines






(Continua)
e o melhor ainda estava para vir...

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4 comentários:

  1. Estarei sempre aqui deste lado de olho em ti. Obrigado por estes momentos de agradável leitura.

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  2. Muito bem a versão "Vadio dos Mares"! Gostei do relato, vou acompanhar o resto. Abraço.

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