quinta-feira

Viagem Inaugural



                                                     PARTE "2"
  • Palamenta (velas e etc)     "Tópico em construção"
  • Testes de Mar / Legalização da embarcação "Tópico em construção"





INTRODUÇÃO:

Pois é meus Amigos(as)... eis que o dia chegou,
e o tal nervoso miudinho (da grande "prova de mar") chegou uns dias antes...

Escolhemos o dia 6 e 7 Julho para rumar da Moita para Vila Franca de Xira,
porque é altura das festas do Colete Encarnado, e como existe uma regata para as festas,
aproveitamos a boleia e uma serie de boas condições que os Vilafranquenses oferecem...

Nessa regata não existe classe para a nossa embarcação, e como tal vamos em cruzeiro...

Imaginei vários cenários, uns difíceis e outros maus...
Para muitas pessoas ou algumas, tudo não passa do Rio Tejo com margens dos dois lados...
Mas a minha experiência troca imediatamente esse nome de "Rio Tejo" por Mar da Palha;
o Estuário do Tejo ensinou-me que tem tanto de "Portentoso" como de "Tenebroso".

MAR DA PALHA + VELA LIGEIRA + SOZINHO + SEM MOTOR ou BARCO DE APOIO;
temperado com o cansaço de velejar uns 40 ou 60 kms...
é uma receita que nos deixa à mercê de muita coisa que pode acontecer...

Uma coisa é certa... vai haver luta... e vamos lutar com aquilo que temos...
Lutar com as costas quentes (com um motor fora de bordo) é uma coisa;
uma coisa do tipo: "isto está difícil... Liga o motor, baixa velas e ruma para aguas mais calmas..."
Mas isso não é opção... porque as velas nunca serão trocadas pelos remos, e o rumo é negociado com  o vento e os fundos baixos...

Em 17 edições do cruzeiro "Moita - Vila Franca de Xira"
umas 8 ou 9 embarcações com os seus 6 a 9 metros, foram ao fundo,

por isso... 
o MAR da PALHA
       ou é "Portentoso"             ou é "Tenebroso"






Vamos lá então...

Montamos o Hitia 14 bem cedo,
e fomos para a ilha do Rato de onde seria dada a partida por volta das 11h da manhã...

Quem anda nestas "andanças" sozinho, aprende que:
- vestimos o colete auxiliar antes de subirmos para a embarcação...
- comemos para repor energias sempre que há uma aberta...
- vestimos agasalhos antes de ter frio...
- protegemo-nos com roupa à prova de agua antes de nos molharmos...

bebemos muita agua que ajuda a manter-nos hidratados e concentrados...

- e dormimos ou descansamos o corpo sempre que há oportunidade...







A partida foi à hora prevista, e saí no meio do plutão e confusão...
dando sempre prioridade e nunca atrapalhando quem estava em regata, é claro.

Antes da partida uma coisa ficou na minha memoria... e não me vou esquecer...
até fico com "pele de galinha" sempre que me lembro desse momento;

No Varino Boa Viagem, que é o "navio Almirante" da regata
o Arrais João Gregório contou um pouco da minha historia aos passageiros,
da minha paixão pela vela e como tinha construído a minha embarcação...
...eu passei próximo do Varino e talvez umas 30 pessoas começaram todos a bater palmas...
eram palmas para o meu Catamaran ou para o meu trabalho... ou sei lá
era apenas uma manifestação de felicidade e apreço dum Grupo de gente anónima para outro de certa forma também anónimo que era eu...

Nunca fui bom a descrever sentimentos... e nem vou tentar...
mas aquela boa gente queria ver coisas bonitas relacionadas com o nosso Tejo durante a viagem,
e existem centenas ou milhares de coisas bonitas para se ver e admirar no nosso Tejo,
e a minha embarcação e a sua historia por momentos foi também uma dessas coisas bonitas que as pessoas procuravam encontrar...
Acabei de escrever isto e lá estou eu outra vez com a pele de galinha... eheheh

O MEU SINCERO OBRIGADO A TODOS ELES...



Já não estava sozinho... eheheh
comigo ia um grande grupo de gente que queria que tudo desse certo para o nosso lado...

e poucas milhas depois a brisa cresce e o Hitia atingia os 12 nós e nunca baixando dos 7
ficando tudo e todos para trás...





Pouco há para dizer...
aproveitávamos para repor energias admirar a paisagem e tirar umas fotos...

Muitas vezes quando estou a olhar para Lisboa sinto-me sempre um privilegiado do caraças...
quem diz Lisboa, diz outra localidade qualquer... porque em terra é onde andamos todos os dias, e aqui nesta espécie de "ilha móvel à vela" é apenas só para alguns...
Isto da "vela" também dá trabalho e despesa, que pode ser feito e pago com criatividade e paixão... porque o dinheiro é sempre escasso.
Mas simplesmente esquecemos o trabalho que dá e sentimos-nos uns privilegiados do caraças...





O Mar da Palha...
era para isso que aqui estávamos,
o nosso objectivo era apresentar o Mar da Palha ao Hitia e vice versa...

Os seus 15 km por 23 km faz-nos sentirmos pequeninos (também nunca fomos grandes),

Agora era só velejar pela velha Cala das Barcas a sudeste do Mouchão da Povoa,
depois passar a noroeste do Mouchão do Lombo do Tejo,
e rumar a nor-noroeste junto ao Mouchão de Alhandra
que as ultimas 3 milhas náuticas é com fim à vista...






Depois de fazer uns 3/4 do caminho vejo uma vela latina à minha frente...
que raio?!?! como era possível alguém dar-me um avanço de 1 milha e tal nesta altura?!?!
em uns 40 minutos consegui ir busca-los e anular-lhes o avanço...

Quanto mais próximo estava de os ultrapassar,
mais evidente se via que eles estavam com enormes dificuldades em lidar com as refregas de popa...

A uns 200 metros à minha frente vejo darem uma cambadela em que o leme deixa de governar,
a tinta de fundo torna-se visível e a embarcação desaparece como que por magia...


Foram uns 2 segundos até a embarcação desaparecer totalmente, ficando com a vela a fazer saco de ar por mais uns segundos...
Meus Amigos(as) não estou a exagerar... não foram precisos 3 segundos, foram 2 no máximo para fazer desaparecer uma embarcação com quase 6 metros de boca aberta e com casco simples...

<= Esta embarcação (foto de 2015)



Ora bolas... para isto...
Ferrei (baixei) a vela grande, e saquei do telemóvel que estava num compartimento estanque, dentro duma bolsa estanque que permite telefonar e falar através dela sem a necessitar de a abrir...
E pedi ajuda à organização e dei-lhes o local exacto onde estávamos...






Ali estava eu a olhar para 2 pessoas que só se via a cabeça sem coletes vestidos agarrados a uma embarcação de madeira à tona de agua...
Uma 3ª pessoa também sem colete já tinha sido retirada da agua por uma lancha de pesca.

A ajuda estava a caminho...
uns 30 minutos depois passam duas canoas em regata (com a estabilidade dos seus 9 metros, com tripulação e motor), mas estes não pararam e lutavam pelo "feijão nº1",
(não pararam porque: ou não compreenderam o que se passava... ou sei lá...)

Eu pouco mais podia fazer...
para alem de me manter-me muito próximo e estar atento,
se a coisa se agravasse, ai sim, tinha que transformar o Hitia numa jangada salva-vidas...






Foi boa ideia não abandonar o local...
pois a lancha de apoio vinha a toda a velocidade
e se eu não tivesse feito sinal (gritado e esbracejado), teriam passado sem os verem...







Agora sim... podia continuar
porque o "socorro" tinha chegado e a "armada" também estava a caminho...

Minutos depois vejo duas embarcações a ferrar (baixar) velas na zona onde os tinha deixado...
Era a Canoa Desvairada, o Gavião dos Mares e o Varino Boa Viagem...

Mais tarde contaram-me o que aconteceu depois dessas Canoas chegarem...
simplesmente a união faz a força, e era malta pela lama, uns a nadar,
tiraram tudo de dentro da embarcação inundada, até o mastro...
e arrastaram a embarcação para terra, para tirarem a agua com baldes
com esta rapaziada por perto, até drenavam o rio se fosse necessário...

O que ficou deste episódio foi mais uma excelente historia para contar e sem consequências...

Mas essa era a historia deles
porque eu nessa altura já estava no conforto da marina...


Entrar à vela numa marina tem muito que se diga... e a primeira coisa que à a dizer é:
- não se faz tal coisa!! é proibido e nem vale a pena questionar porquê!!
Mas eu entrei com vento de popa, e a genoa não recolhe e não a consegui enrolar...
mas tudo correu bem eheheh e com uma boa ajuda do Marco nem nos fingers toquei...






Agora era aproveitar a festa... o convívio a camaradagem,
e as historias antigas outras recentes que acabavam sempre com umas boas gargalhadas...

A SNUDV (Secção Náutica da União Desportiva Vilafranquense) deu acostagem grátis na marina,

A Câmara Municipal ofereceu o jantar e umas lembranças,

A Canoa "Sempre Consegui" do Manel orientou-me uma confortável cama para dormir,

e etc etc...



O tempo passa sempre a correr,
e na manhã do segundo dia com a corrente neutralizada era altura de soltar amarras...

Digo-vos uma coisa:
- Lisboa, a Margem Sul, as suas Pontes, as margens em si, vistas da agua são bonitas, imponentes e muito diferentes daquilo que vemos de terra...
- Mas das paisagens mais bonitas que vi até hoje é Vila Franca Xira...
Parece que as casas e a margem estão a flutuar na agua devido à proximidade...





e Alhandra??... também é lindo de se ver...
é o verde misturado com as poucas casas que são visíveis com uma bonita marina...
E tem uma enorme igreja branquinha que sobressai na paisagem





As previsões meteorológicas do dia anterior, tinham sido certinhas...
mas as de hoje, estavam totalmente erradas... era suposto ter um vento fraquinho de popa até as 10 da manhã e depois rodar para uma bolina cerrada mas sem ultrapassar os 4 nós (7 km/h) de brisa...

O vento tinha rodado durante a noite
e as refregas (rajadas de vento) no final da manhã devíamos ter uns 20 nós... (40 km/h)

Era o que havia!! ...mas tudo bem! porque:
- se saímos do conforto da nossa casa para fazer uma viagem destas...
   aquilo que acontecer! foi aquilo que fomos à procura!! é esse o espírito que levamos...

...e só sei que era agua por todo o lado... eheheh

 







Mas quando pensamos que as condições estão difíceis,
devemos sempre lembrar-se que podem sempre ficar muito mais difíceis,
...e foi o que aconteceu

depois de umas 15 a 20 milhas (+/- 30 km/h) à bolina (contra o vento) e aos pinotes...
tinha pela frente umas 2 milhas (4km) que vão da Ponte Vasco da Gama até à Marina da Expo,
que eram um inferno do caraças...


O vento tinha subido para uns constantes 20 nós, e o Mar da Palha estava um verdadeiro inferno... Algumas embarcações já tinham-se abrigado na marina à espera que as condições melhorassem...

Mas o meu plano não era esse... e tinha 3 escolhas:

- Bolina serrada com vários bordos até ao Cais da Matinha,
(que era um verdadeiro tiro no pé)

- Fazer uma bolina até à Cala Sul,
(era um bom plano, arriscado e difícil... e certamente iria conseguir mesmo contra o vento e corrente)

- Ou pedir uma reboque a um casal amigo que vinha a motor à minha ré, até ao Cais da Matinha... 
(era o mais sensato e seguro)




O grande perigo que tínhamos de evitar seria o conhecido "vazador" ou "lixeira de ferro velho" em pleno Tejo.

Muito boa gente desconhece esta lixeira criada pelas obras da ponte Vasco da Gama e não só... mas o "perigo" está lá... cheio varões de eliaço cravados na lama;

Supostamente deveriam ter apodrecido à muito, mas não! porque estão enterrados na lama e isolados do oxigénio da agua...

Ainda existe o problema de alguns (muitos) desses varões serem de diâmetros enormes e que acabam como autenticas agulhas devido à corrosão...

Agora junta-se isto tudo e mais algumas coisas que eu nem mencionei, mais a falta de sinalização deste perigo. Em tempos existiram 4 bóias amarelas a assinalar o local... depois com os UVs passaram a ser brancas, e actualmente dessas 4 bóias eu só consegui ver (encontrar) uma.



como tal... pedimos boleia ao Centeno e à Barbara...





O velho motor com mais de 50 anos do "pequeno" veleiro do Centeno lá nos levou dali para fora...






Estava para lá do Cais da Matinha...
e agora seria relativamente fácil, embora o meu Amigo Centeno se recusa-se a deixar-me continuar à vela... mas acabou por concordar em soltar o cabo de reboque.

Era fazer uma simples bolina até à Lavradio e estava praticamente em casa...
Usamos apenas a genoa sempre com a vela grande em baixo,
a levar com as ondas de través (de lado) fazíamos 6 nós (10km/h) sem espinhas.





A ondulação era típica duma tarde agreste no Mar da Palha, e eu estava admirado com a estabilidade do HITIA... por diversas vezes vi as canas de leme desaparecerem na agua, para não dizer as popas...





Consegui captar um desses momentos é que a popa e a cana de leme é engolida por uma onda...





Foram umas belas e rápidas 8 milhas (15km), que não sei quanto tempo durou...
mas pareceu-me rápido... ou o que é bom acaba rápido eheheh
...e fizemos escala na Ilha do Rato para almoçar e esperar pela subida da maré para rumar para casa.


Valeu a pena... foi um belo fim de semana
e uma viagem inaugural merecida para quem teve 1 ano e meio de trabalho eheheheh

Os custos de todo o fim de semana rodaram uns 5€
(nuns cafés... e num bom pequeno almoço)

Não me posso esquecer de agradecer:
- ao Centro Náutico Moitense pela organização da regata/cruzeiro,
- à SNUDV (Secção Náutica da União Desportiva Vilafranquense) deu acostagem grátis na marina,
- ao Marco da Canoa Madalena que ajudou-me a meter travões no interior da marina eheheheh,
- à Câmara Municipal Vilafranquense e da Moita que ofereceu o jantar e umas lembranças,
- à Canoa "Sempre Consegui" do Manel que orientou-me uma confortável cama para dormir,
- e ao Centeno e à Barbara pelo reboque naquelas condições difíceis.



Pelo caminho fomos filmando alguns momentos e editamos este pequeno video.






OBRIGADO  pela visita...

Bons-ventos
(Edgar)

                                                     PARTE "2"
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