sexta-feira

PELOS FILÕES DO SUL


Se tivesse que escolher uma única palavra para relatar esta pequena volta,
seria...
            "Saudades"



INTRODUÇÃO:
Pois... já tinha saudades de viver aqueles dias antes de sair, de fazer a revisão à minha Menina, de preparar a barraca e o saco cama e mais aquelas coisas que vão sempre com a gente nas velhas malas...
Saudades de sentir aquele frio que até faz doer a ponta dos dedos, de ter os pés gelados... de parar a XT e começar a andar dum lado para o outro para conseguir lentamente aquecer eheheh

Alguns já devem estar a pensar... -Este gajo deve estar doido ou maluco!

Talvez não... porque se queremos ter o prazer rolar e ver o sol nascer, de ver o dia a aparecer...
De ter o prazer de aquecer depois de estar enfriorado com a claridade da manhã,
de estar longe de casa quando o dia começa...
Então... são essas são as sensações que sabemos que vamos ter de gramar,
e com o tempo até aprendemos a gostar delas... e são algumas vezes engraçadas e motivo de piada;
simplesmente fazem parte daquilo que vamos à procura.


Para conseguir economizar todos os trocos, abandonei por uns tempos a vadiagem em duas rodas, comprei umas madeiras e tal... e dois anos depois nasce um Porta-Aviões do caraças...
Também é "orgulhosamente" a embarcação de madeira à vela mais rápida do Tejo e arredores, eheheh




Foram precisos 2 anos sem queimar gasolina,
por isso a palavra "saudade" ter vindo à baila no primeiro paragrafo.

Em Novembro preparamos tudo para fazer uma revisãozeca à Maxine,
e começamos a planear ir vadiar no inicio de Dezembro até ao sul de Espanha

Mas desta vez não iamos sozinhos, e o meu Amigo Rui juntou-se à festa...
e fizemos um itinerário "às 3 pancadas" com a promessa que depois logo se via.



...e vamos lá a isso:
Combinamos o ponto de encontro por volta das 7 da matina a sul de Beja,
e depois de rapar umas duas horitas bem fresquinhas lá estava eu no ponto de encontro,
5 ou 10 minutos depois chega o Rui, e depois dos cumprimentos habituais...
a conversa que lembro foi:
- então Rui?! está fresquinho ahh!!
e ele respondeu-me - só tu para me fazeres sair de casa a esta hora, vadio do caraças eheheh

Minutos depois estávamos a caminho do Pulo do Lobo,
eu já conhecia a margem "Leste" do Pulo do Lobo,
mas faltava-me conhecer a margem "Oeste" ( 37º 48' 14.83'' N    7º 38' 0.82'' W )


Corre muita agua rio Guadiana... o rio é largo e ele vai sereno até ao Algarve.
Mas quando encontra o Vale Guadiana com a sua garganta rochosa o rio ferve...
Aquela frase de "agua mole em pedra dura, tanto bate até que fura" não se aplica no Pulo do lobo;
a agua não é mole... é o autentico jacto gigante, com uma pressão e velocidade impressionante, mas as paredes rochosas estão à altura da sua força. Os anos passam e nem 1 milímetro a agua consegue roubar à rocha... é um espectáculo sem intervalos bonito de se ver...





Era altura de continuar... e o próximo destino seria atravessar a fronteira pelo Pomarão;
mas antes disso tínhamos um trilho do antigo caminho ferro das minas de São Domingos.

O trilho está todo dividido, partido e lixado...
algumas vezes até bastante traiçoeiro e pode ser perigoso...
O perigo está na travessia das pontes que não existem, e encontra-se coisas como enxofre e sei lá mais o quê, o segredo é passar e não olhar muito para o que existe...

Ahhh... e capacete bem fechado (pelo sim e pelo não)
porque existem umas aves sem penas, do tipo Batman, nos túneis mais longos.
           -Um pequeno Batman                                     



Mas os túneis são a "cereja no topo do bolo", e desta vez aproveitamos para cruzar o primeiro e ultimo túnel, os mais fáceis e muito acessíveis.




Mas não iríamos ficar por aqui muito tempo, teria que ser uma passagem rápida,
porque isto já foi visitado noutras alturas...


Deixamos o Pomarão para trás e fizemos rumo a uma pequena localidade chamada Tharsis.


O objectivo inicial era ir até à Cidade Mineira de Rio Tinto, mas mudamos de planos, porque os dias são pequenos e a noite estava a poucas horas de aparecer.

Tharsis é talvez uma amostra de Rio Tinto, mas muito maior que São Domingos...
e revelou-se uma boa e simpática aposta.

Tharsis tem vários buracões, umas coisas monstruosas, e eu nunca tinha visto nada parecido com isto ao vivo;

Devia ter sido uma grande mina a céu aberto e muitos mecanismos ferrugentos ainda se podem ver onde foram deixados...








Pessoalmente gosto de ver o abandono e a destruição do ferro e betão consequência dos elementos naturais... Não me interpelem mal: - não sou contra o progresso ou a industrialização !! 
Simplesmente gosto de ver a natureza a renascer e a reclamar o seu lugar,
e se isto já foi "chão que deu uvas" então que seja lentamente engolida pela mãe natureza.






Há muita coisa para ver e descobrir, mas não é fácil, porque está tudo muito bem vedado...
A velha regra de nunca forçar uma vedação é sempre para respeitar,
mas de XT a mobilidade é grande e podemos afastarmos-nos para procurar uma entrada,
por onde ninguém se lembrou de explorar eheheh






A localidade tem um museu sobre as minas e as pessoas que encontramos foram muito simpáticas... talvez estejam habituadas a receber curiosos como eu e o Rui.




O Rui foi quem escolheu na hora os trilhos, e encontramos uns estradões rápidos e divertidos...

Circular fora de estrada em Espanha pode ser um problema do caraças, devido à "Ley de Montes"
ou seja a lei: "ley 43/2003, de 21 noviembre"
Mas essa lei Espanhola determina que cada região é autónoma em determinar as regras da lei.
Interpretar certas leis é complicado, mas o que descobri sobre a Andaluzia foi:
- Segundo uma actualização "de 21 de mayo de 2009 está proibido a circulação de veículos a motor entre 1 Junho a 16 Outubro.
- Mas existe uma outra lei talvez a mais relevante para a Andaluzia que passo a citar,
Decreto 23/2012, de 14 de febrero,por el que se regula la conservación y el uso sostenible de la flora y la fauna silvestres y sus hábitats.
(...)
Serán viales de libre circulación para los vehículos, quad o asimilados aquellos caminos públicos de tierra o de cualquier otro firme natural de anchura superior a tres metros, y en caso de motocicletas, aquellos con una anchura superior a dos metros, no considerándose como tales las vías pecuarias, los cortafuegos, los viales forestales, así como los caminos privados, cerrados al tráfico mediante la oportuna senalización, y aquellos otros en los que se prohíba expresamente este uso.




Rolar dentro da lei... dá outro prazer e outra liberdade...
não há nada que se compare a levar uma consciência tranquila como pendura... eheheh




O dia terminava quando chegasse-mos a EL ROCÍO.

Em El Rocío estava a haver um evento que nos dava um lugar grátis para montar a tenda.
Chegamos lá  de noite, não sei ao certo a que horas, porque nunca uso relógio.
O cansaço já se fazia sentir, ou talvez é a velhice que não perdoa...
e era suposto eu saber e conhecer o local onde iamos acampar.
Já estávamos com a paciência esgotada, e eu não dava com aquilo...
O evento chama-se MEMORIAL MOTOROCIO, e era a sua 30ª edição...

É um evento singular onde a Paroquia "se associa" ao M.C. BIELA LOCA, para realizar uma homenagem a todos(as) motociclistas que já partiram devido a acidentes.
É um fim de semana para reflectirmos sobre o valor da vida e como podemos e devemos dar uso a essa reflexão no nosso dia a dia...

Até que nem sei bem como foi, lá encontramos o local do evento.




Escolhemos um bom local para montar as tendas, e minutos depois ajudamos um casal com duas filhas pequenas a fazer uma fogueira...
A ajuda originou o convite a usar a fogueira e uma pequena mesa.

Havia um pequeno folheto na mesa que me despertou a atenção e perguntei:
- Estiveste a fazer a apresentação dum livro sobre uma viagem de Moto?
e ele (Manuel Medina):
- Sim estive! foi uma viagem até à Mongólia de XT 125... e bla bla...bla...
foi em 2010 que fiz essa viagem... na altura não tinha carta de moto, nem moto, e tive sorte e ganhar uma XT125 num sorteio... e depois bla bla... ...

Estivemos à conversa algum tempo, e ele contou-me que depois da Mongólia, tinha tirado a carta e feito uma pequena viagem até à Turquia e outra a Marrocos, mas numa Triumph Tiger 800

...basicamente a venda do livro, era para ajudar a próxima viagem, que será uma volta ao mundo, numa XT600E de 2003 igual à minha...




Conversa-mos outras coisas, sobre outros pormenores...
Mas de repente veio uma coisa à cabeça;
- já que eu não vou a lado nenhum, vou-lhe comprar o livro!! ou tenho que ajudar de alguma forma!

e perguntei: - Ainda tens alguns livros para venda? quanto custa?
e saquei de 20€ e comprei-lhe o livro que ele usava na exposição com algumas marcas de uso...

Mas a coisa não ficou por aqui... e a conversa e as perguntas continuaram...
Uns dias depois vou à procura da sua pagina do facebook e encontrei esta foto e um simpático comentário...




Na verdade já comecei a ler o livro, e vou termina-lo brevemente...
depois tenho que ir entrega-lo ao Rui que é dono de 50% do livro e duma divida de 10€ eheheheh

Mas cuidado... que este livro pode ser como diziam antigamente, "uma má influencia" eheheheh
porque neste livro é um bom exemplo, e faz prova, como é relativamente fácil e acessível embarcar numa aventura destas...

Porque é um diário duma bela aventura de uma pessoa:
- que é um zero em mecânica,
- sem experiência em viagens,
- com um emprego e os seus 30 dias de ferias anuais como a maioria das pessoas,
- e etc etc... simplesmente é um gajo como eu, sem tempo, agarrado a um emprego e sem guita...

O Manuel foi para sua casa com a sua família, e a fogueira ficou...




Muitas mais coisa se podia contar...
muitas outras coisas aconteceram, mas estaria a ser chato se entra-se por esse caminho..
Mas uma eu vou ter que contar:
O Rui tinha levado jantar, era duas choriças e dois pequenos pães caseiros;
mas eu depois de provar a choriça, deram-me um copo de sopa...
...e depois descobri a panela da sopa, era enorme e fui lá buscar mais umas 5 sopas.
A sopa era canja e era mesmo boa, era só caldo sem arroz mas de chorar por mais...

Estava mesmo curioso em descobrir a receita deste caldo, e basicamente era chá de galinha, ou seja uma galinha fervida em agua com mais uns temperos para engrossar o caldo...

Olhando para a receita não me pareceu assim grande coisa... Chá de galinha?!?!
mas mesmo assim ainda comi mais outros 4 ou 5 caldos... eheheh



Depois duma noite bem dormida, era dia de regressar a casa...
Atravessar a fronteira e procurar um bom restaurante Português... e assim foi




Com as imagens que fui recolhendo pelo caminho,
fizemos este pequeno video (da treta):
Basicamente é a mesma historia de sempre: Duas Motas velhas e dois velhos Amigos que são patrocinados apenas pela sua curiosidade e por aquele gosto em Vadiar misturado com a paisagem...
...e pouco mais à para dizer.





Obrigada pela visita ao blog
e um dia destes encontramos-nos por ai...
(Edgar)